{"id":296,"date":"2004-11-16T00:36:46","date_gmt":"2004-11-16T00:36:46","guid":{"rendered":"http:\/\/ritacastroneves.com\/?p=296"},"modified":"2016-11-16T02:18:33","modified_gmt":"2016-11-16T02:18:33","slug":"relato","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/relato\/","title":{"rendered":"Relato"},"content":{"rendered":"<p>Este \u00e9 um projecto realizado a prop\u00f3sito do Euro 2004 para as p\u00e1ginas centrais da revista <em>Laura<\/em>. O texto relata na primeira pessoa uma rela\u00e7\u00e3o entre duas pessoas usando a linguagem do relato futebol\u00edstico. Este texto escrito a partir do texto falado, pretende criar uma metalinguagem para falar da rela\u00e7\u00e3o f\u00edsica no futebol, universo de sedu\u00e7\u00e3o, hesita\u00e7\u00f5es, desejos, expectativas e trai\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Texto reproduzido ao longo da duas p\u00e1ginas centrais\u00a0com tipo de letra e cor da revista:<\/p>\n<p>Foi uma \u00e9poca m\u00e1. O tempo n\u00e3o ajudava, parecia que quanto mais me esfor\u00e7ava pior as coisas sa\u00edam, uma data de mal-entendidos numa hist\u00f3ria a lutar contra o rel\u00f3gio e algu\u00e9m interrompe, um coment\u00e1rio, uma senten\u00e7a e tu, l\u00e1 est\u00e1s, a colocar a conversa fora do alcance, as palavras a sa\u00edrem-te ao lado, ofensivo, e eu, a sonhar com emo\u00e7\u00f5es banais. O piso est\u00e1 escorregadio, olho-te, tamb\u00e9m tu vacilas, \u00e9 como uma dan\u00e7a, eu aqui tu ali, e por a\u00ed fora. Mas h\u00e1 uma altera\u00e7\u00e3o de novo, e tu, que chegaste a estar em d\u00favida, tiveste uma bel\u00edssima participa\u00e7\u00e3o sobretudo numa altura dif\u00edcil para mim mas isso obrigou-te indiscutivelmente a um grande desgaste. Consumada a altera\u00e7\u00e3o, recebo-te no peito, sacudo-te, mas a entrada \u00e9 dura e o golpe mal medido. Encaminho para a frente, sou obrigado a recuar, por estar a ser perseguido \u2013 apertado, melhor dizendo &#8211; nada que o teu apoio n\u00e3o possa resolver. Vamos rompendo, insistimos, cobramos de volta, e aguentamos ali a carga. Ganhas campo, velocidade e parece que te ou\u00e7o entoar: o feiti\u00e7o pode virar-se contra o feiticeiro, n\u00e3o se percebe muito bem o que queres fazer, uma esp\u00e9cie de aviso \u00e0 navega\u00e7\u00e3o \u2013 como se j\u00e1 n\u00e3o os houvesse em n\u00famero suficiente, e claro, isso ajudou a tirar-me algum g\u00e1s, a mim que, m\u00e9rito me seja reconhecido, entrei com uma enorme vontade de dar a volta e mudar a direc\u00e7\u00e3o das coisas. Mas isso n\u00e3o chega, n\u00e3o \u00e9? E l\u00e1 est\u00e1, fazes o corte, protestas, d\u00e1s para tr\u00e1s, e acompanhas a descida. E eu que n\u00e3o consigo reagir como queria. Era j\u00e1 premonit\u00f3rio. A sofrermos at\u00e9 ao fim.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma grande movimenta\u00e7\u00e3o, olho-te, preciso de te olhar, sem pensar, tamb\u00e9m eu \u00e0 beira do desequil\u00edbrio, vejo-te a gritar mas n\u00e3o te ou\u00e7o, m\u00edmica long\u00ednqua. Os tempos s\u00e3o de grande sorte. De repente isto est\u00e1 a correr bem, estico-me e consigo impedir o pior, ganhamos \u00e2nimo para lutar. H\u00e1 como que um regresso, uma entrada nova, outro regresso, a conversa j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o a\u00e9rea, tens um momento de grande inspira\u00e7\u00e3o e eu a concretizar-te, um a dar assist\u00eancia ao outro, uma dupla invenc\u00edvel, a fazer rodar os outros para poupar energias. Dizem-me que tivemos um ligeiro desaguizado, que se calhar isto vai reeditar esse teu mau g\u00e9nio, mas os outros nem nos cheiravam, n\u00e3o nos cheiravam de maneira nenhuma, n\u00e3o tinham tempo para isso, e como n\u00e3o nos cheiravam, tiveram que ir buscar um len\u00e7o. Continua um ambiente fant\u00e1stico, numa noite hist\u00f3rica, uma noite endiabrada com perfume de grandes des\u00edgnios. Nem ouso olhar para o lado, por medo de vacilar. E o corpo desejoso de ac\u00e7\u00e3o espera, a mente vagueia e o corpo espera, espera. E a corrida \u00e9 contra o tempo. Sigo-te para todo o lado, e nunca me sais da cabe\u00e7a, dizes-me algo entredentes, um sussurro indecifr\u00e1vel, murm\u00fario quase inaud\u00edvel &#8211; mas na tua cara est\u00e3o todas as palavras, por momentos esque\u00e7o os outros, mas os momentos s\u00e3o curtos, mesmo quando sei que n\u00e3o sou s\u00f3 eu que tenho medo, e tu dividido, indiscutivelmente mais pausado, a correres para onde eu n\u00e3o estou, como se um gesto n\u00e3o fosse um acto da raz\u00e3o, deixo de te ver,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><b>Relato<\/b>  \u00e9 um projecto realizado a prop\u00f3sito do Euro 2004 para as p\u00e1ginas centrais da revista Laura. 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