{"id":334,"date":"2008-10-16T02:26:03","date_gmt":"2008-10-16T02:26:03","guid":{"rendered":"http:\/\/ritacastroneves.com\/?p=334"},"modified":"2016-11-16T02:52:11","modified_gmt":"2016-11-16T02:52:11","slug":"inuit","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/inuit\/","title":{"rendered":"Inuit"},"content":{"rendered":"<p>Na s\u00e9rie de fotografias <em>Inuit<\/em> um casaco invernoso \u00e9 usado em situa\u00e7\u00f5es quotidianas por uma figura feminina. Muito embora o casaco-inv\u00f3lucro seja sempre o mesmo, um olhar atento revelar\u00e1 que as mulheres que o incorporam s\u00e3o diferentes. O inusitado est\u00e1 aqui na min\u00facia.<\/p>\n<p>Encenadas para a c\u00e2mara, as situa\u00e7\u00f5es em retrato apenas aparentemente s\u00e3o banais. Uma tens\u00e3o latente vai-se tornando cada vez mais presente, \u00e0 medida que as situa\u00e7\u00f5es se sucedem.<\/p>\n<p>Funcionando como d\u00edpticos, ao lado de cada retrato surge uma fotografia de paisagem. A paisagem \u00e9 simultaneamente um cen\u00e1rio alternativo e uma esp\u00e9cie de espelho ou representa\u00e7\u00e3o visual do estado de esp\u00edrito da personagem &#8211; numa l\u00f3gica rom\u00e2ntica. Mas tamb\u00e9m aqui as paisagens enganam.<\/p>\n<p>A coer\u00eancia est\u00e9tica e composicional do conjunto das imagens aproxima paisagens de locais t\u00e3o diversos como o Porto, Berlim, Angoul\u00eame e Braga, numa geografia nova e descaracterizada.<\/p>\n<p>Mais uma vez se sublinhando a ideia de que a desloca\u00e7\u00e3o que aqui tem lugar \u00e9 a que se passa no interior do casaco \u2013 numa<\/p>\n<p>Texto de Eglantina Monteiro para a exposi\u00e7\u00e3o na Galeria Reflexus (20 set-25 out 2008)<\/p>\n<p>Companhia das Culturas, Castro Marim<\/p>\n<p>15 de Setembro de 08<\/p>\n<p>Querida Rita,<\/p>\n<p>O e-mail que me enviaste com as fotografias da exposi\u00e7\u00e3o, chamava-se \u201cRita a Inuit\u201d, que n\u00e3o \u00e9 propriamente o t\u00edtulo da exposi\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 inspirador.<\/p>\n<p>Enquanto as imagens eram transladadas para o meu computador, cheguei a pensar que abandonaras a mat\u00e9ria com que vinhas urdindo os teus trabalhos: corpos de mulheres em gestualidades encenadas e aparentemente banais, e paisagens cuja luz dos n\u00e9ons, da via p\u00fablica ou qualquer outra n\u00e3o indicia nem a noite, nem o entardecer, nem as sombras do andamento do dia.<\/p>\n<p>No meu imagin\u00e1rio de antrop\u00f3loga, n\u00e3o te projectei em nenhuma campanha pelas terras do degelo, mas associei o t\u00edtulo \u00e0s tuas andan\u00e7as pela Finl\u00e2ndia nos finais dos anos 90, quando expuseste em Hels\u00ednquia e organizaste exposi\u00e7\u00f5es de\u00a0 artistas finlandesas e portuguesas, c\u00e1 e l\u00e1.<\/p>\n<p>Este per\u00edodo, bem como os teus dois anos de Inglaterra e a tua dupla identidade, portuguesa e francesa, t\u00eam uma marca indel\u00e9vel no modo como tratas as tuas personagens, cujas roupagens ou a pr\u00f3pria nudez s\u00e3o igualmente pr\u00f3teses.<\/p>\n<p>Levo mais tempo do que o necess\u00e1rio a abrir o <em>attachment<\/em> com as fotografias, e n\u00e3o posso deixar de pensar que o t\u00edtulo n\u00e3o tenha uma liga\u00e7\u00e3o com o teu \u201cper\u00edodo finland\u00eas\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo que a minoria Inuit que coroa a terra pela Sib\u00e9ria, Gronel\u00e2ndia, Alasca e o \u00c1rctico Canadiano, n\u00e3o tenha qualquer presen\u00e7a nas urbes ocidentais da Finl\u00e2ndia, ou que tu nunca tenhas abeirado as suas terras ou conhecido mesti\u00e7os, ser\u00e1 sempre uma aus\u00eancia que se pressente.<\/p>\n<p>Tal como aconteceu com as outras minorias culturais do planeta, nos anos 70 os Inuit exigiram ser ouvidos, reivindicando acento nas estruturas pol\u00edticas, e em 1979 a liberal Dinamarca deu-lhes autonomia interna, pelo menos para alguns sectores.<\/p>\n<p>Foi ainda nos loucos anos 70 que os jovens das cidades industrializadas da Europa e Am\u00e9rica procuraram junto dos povos que os pais e os av\u00f3s consideravam primitivos, os s\u00edmbolos de uma identidade que queriam construir. Com os Inuit foi o fasc\u00ednio pela po\u00e9tica n\u00f3mada, a resist\u00eancia aos desertos gelados do sil\u00eancio, as tendas comunit\u00e1rias feitas em pele e em forma de c\u00fapula, onde a ca\u00e7a \u00e9 partilhada e as entidades xam\u00e2nicas convocadas para o festim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E, se os casacos afeg\u00e3os com os bordados de fio de seda a debruar mangas e badanas fizeram furor junto da popula\u00e7\u00e3o hippy, foi o modelo dos agasalhos polares em pele de focas e renas selvagens, completamente blindados deixando ver apenas o rosto aureolado com o pelo do animal, que permanece na moda de inverno das popula\u00e7\u00f5es ocidentais. Para al\u00e9m de cumprir, e bem, a fun\u00e7\u00e3o, o casaco \u00e9 mais uma camada de pele, por cima de outras peles, ou a possibilidade de se suportar a adversidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nunca visitei esses nortes, o meu lugar mais a norte \u00e9 Copenhaga. De resto, s\u00f3 tenho not\u00edcias atrav\u00e9s da literatura, do cinema e sobretudo dos document\u00e1rios da National Geography e das s\u00e9ries de antropologia. Numa, dedicada aos grandes antrop\u00f3logos, um filme sobre Franz Boas come\u00e7ava justamente com uma viagem \u00e0 Terra de Baffin no Canad\u00e1 Polar nos finais do s\u00e9culo XIX, logo no in\u00edcio da sua longa carreira, acompanhando uma equipa de ge\u00f3grafos que iam cartografar as terras gelificadas e incertas habitadas pelos Inuit. De l\u00e1, escreveu longas cartas \u00e0 futura mulher, ora de deslumbramento, ora arrebatadas pela dist\u00e2ncia e incompreens\u00e3o intranspon\u00edveis. Tinha ido estudar a influ\u00eancia do meio sobre o modo de vida e pensamento ind\u00edgenas, e acabou por defender que a hist\u00f3ria e sobretudo a l\u00edngua t\u00eam um papel muito mais importante do que o meio natural ou as heran\u00e7as gen\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Foi ele quem primeiro percebeu a import\u00e2ncia do dom\u00ednio das l\u00ednguas no trabalho de campo e, mais do que isso, o papel da l\u00edngua na actividade inconsciente do esp\u00edrito. Da\u00ed avan\u00e7ou com a ideia da l\u00edngua como uma esp\u00e9cie de paradigma para o estudo de todos os outros sistemas simb\u00f3licos, cujos princ\u00edpios organizadores normalmente escapam \u00e0 consci\u00eancia dos falantes ou pensantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nestes teus trabalhos a alteridade \u00e9 adensada pelo t\u00edtulo &#8211; ao da mulher ap\u00f5es Inuit \u2013 , deslocando, ou melhor clarificando, uma ambiguidade que n\u00e3o se reporta \u00e0 coisa representada, mas aos registos de representa\u00e7\u00e3o que criteriosamente escolhes: nem arte, nem document\u00e1rio social.<\/p>\n<p>Ao trabalhares a partir dos modelos de cren\u00e7a e os modos de fazer, ver e compreender as imagens fotogr\u00e1ficas, as tuas fotografias n\u00e3o reflectem s\u00f3 os teus interesses, mas s\u00e3o suscept\u00edveis de rebaterem quem os v\u00ea.<\/p>\n<p>Um abra\u00e7o para todos, para ti um at\u00e9 muito breve,<\/p>\n<p>Eglantina Monteiro<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p><b>Inuit<\/b> \u00e9 uma s\u00e9rie fotogr\u00e1fica de 2008 que retrata pequenas ocorr\u00eancias do dia-a-dia em que o inusitado est\u00e1 no detalhe.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":350,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-334","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fotografia"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=334"}],"version-history":[{"count":6,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":351,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334\/revisions\/351"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/350"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}