{"id":352,"date":"2015-11-16T03:03:05","date_gmt":"2015-11-16T03:03:05","guid":{"rendered":"http:\/\/ritacastroneves.com\/?p=352"},"modified":"2016-11-16T03:40:16","modified_gmt":"2016-11-16T03:40:16","slug":"duas-casas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/duas-casas\/","title":{"rendered":"Duas casas"},"content":{"rendered":"<p>Esta instala\u00e7\u00e3o \u00e9 de duas \u201ccasas\u201d arquet\u00edpicas, de desenho simples: uma grande e uma pequena. As \u201ccasas\u201d com uma estrutura de madeira muito simples s\u00e3o revestidas a tecido &#8211; tecido feito, constru\u00eddo, a partir do costurar de v\u00e1rias pe\u00e7as de roupa usadas juntas: camisas, t-shirts, cal\u00e7as, pe\u00fagas, cachec\u00f3is&#8230;.<\/p>\n<p>As pe\u00e7as de roupa individuais j\u00e1 usadas por diferentes pessoas e descartadas, ganham uma nova geografia do uso, numa nova l\u00f3gica combinat\u00f3ria, como se de um encontro de pessoas diferentes se tratasse ou, como se momentos da hist\u00f3ria pessoal de uma s\u00f3 pessoa se encontrassem num objeto \u00fanico tornado coeso.<\/p>\n<p>Costurar sabemos \u00e9 atividade simb\u00f3lica, e aqui o costurar das v\u00e1rias pe\u00e7as de roupa diferenciadas \u00e9 um juntar, criar uni\u00e3o, fazer sentido, para depois, poder erguer um poss\u00edvel abrigo, em forma de casa. A roupa usada destitu\u00edda de corpo, tamb\u00e9m sabemos, tem carga antropol\u00f3gica, hist\u00f3rica (por exemplo, nas inesquec\u00edveis imagens dos montes de roupa de Auschwitz&#8230;), art\u00edstica (Christian Boltanski, Annette Messager&#8230;), econ\u00f3mica e ecol\u00f3gica (o seu peso contempor\u00e2neo na polui\u00e7\u00e3o industrial, a sua preocupante descartabilidade).<\/p>\n<p>A roupa usada destitu\u00edda de corpo, lembra sempre o corpo, pela sua finalidade, pela sua forma; a roupa oca, n\u00e3o \u00e9 apenas roupa, \u00e9 roupa-sem-o-seu-corpo, sublinhando aus\u00eancia.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria desta \u201ccasa-Assemblage\u201d &#8211; os tecidos &#8211; aconchegam, mas tamb\u00e9m repelem pela evidente realidade de que j\u00e1 estiveram em contacto \u00edntimo com v\u00e1rios corpos, outros corpos, corpos diversos.<\/p>\n<p>Por outro lado, no local da instala\u00e7\u00e3o, ao entrarmos para dentro da \u201ccasa\u201d re-tornamos \u00e0 nossa condi\u00e7\u00e3o de corpos despidos, com roupa por fora.<\/p>\n<p>A casa-roupa, casa-pele interpela tamb\u00e9m pelas possibilidades que sugere de constru\u00e7\u00e3o com recurso a mat\u00e9rias t\u00e3o b\u00e1sicas quanto dispon\u00edveis, numa materializa\u00e7\u00e3o &#8211; enquanto imagem-pensamento, imagem-de-uma-ideia, da solu\u00e7\u00e3o para o problema da (falta de) habita\u00e7\u00e3o: pequeno ensaio para uma utopia concretiz\u00e1vel.<\/p>\n<p>Abrigo afetivo e depurado, esta \u201ccasa\u201d \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica da possibilidade de juntar todos (por refer\u00eancia a todas as pessoas que usaram efetivamente todas as pe\u00e7as de roupa usada) e tudo (os momentos e as hist\u00f3rias que foram vividos com aquelas roupas, as mem\u00f3rias que despoletam nos seus donos). Na dicotomia cl\u00e1ssica da Hist\u00f3ria, esta casa assim erigida, com as roupas usadas por v\u00e1rios, \u00e9 simultaneamente \u201cmonumento\u201d e \u201cdocumento\u201d &#8211; mas de uma hist\u00f3ria an\u00f3nima.<\/p>\n<p>As casas s\u00e3o duas: uma grande, para um adulto ou um pequeno grupo de adultos, a outra, a pequena, \u00e9 para uma crian\u00e7a, ou duas, se bem souberem negociar espa\u00e7o, chegar a acordo.<\/p>\n<p>A casa grande estava dentro de casa, e \u00e9 assim na sua ess\u00eancia uma redund\u00e2ncia: casa para dentro de casa. Mas coloca-se frente a outra, uma mais pequena, que estava no exterior, no p\u00e1tio, desprotegida, mas mais pr\u00f3xima da sua finalidade.<\/p>\n<p>Esta rela\u00e7\u00e3o de vizinhan\u00e7a, de proximidade, sugere intimidade na separa\u00e7\u00e3o: dois corpos separados mas pr\u00f3ximos: geograficamente, construtivamente, essencialmente.<\/p>\n<p>A casa pequena, estando no p\u00e1tio exterior, \u00e0 chuva e ao vento, foi realizada a partir da jun\u00e7\u00e3o de gabardines e casacos \u2013 idealizada solu\u00e7\u00e3o, por transposi\u00e7\u00e3o da mat\u00e9ria \u201ccasa\u201d para a mat\u00e9ria \u201croupa\u201d, uma tect\u00f3nica para o t\u00eaxtil. A op\u00e7\u00e3o por colocar a casa pequena, a casa mais fr\u00e1gil, no exterior, sublinha a vulnerabilidade a que est\u00e1 sujeito quem vive, sem casa, no espa\u00e7o p\u00fablico exterior.<\/p>\n<p>Nas duas casas a fonte de luz \u00e9 uma l\u00e2mpada suspensa do teto, l\u00e2mpada simples, improvisada, do exterior. O mesmo fio grosso leva a eletricidade \u00e0s duas casas, como em solu\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas de recurso, em que se \u201cpuxa\u201d a eletricidade do vizinho, ou do poste de ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Visualmente &#8211; no espa\u00e7o &#8211; as duas casas est\u00e3o unidas pelo fio e por um fluxo de energia, que \u00e9 el\u00e9trico.<\/p>\n<p>Duas casas arquet\u00edpicas, de dimens\u00f5es diferentes mas escalas pr\u00f3ximas, separadas, mas juntas no seu isolamento, na sua originalidade, sugerem reflex\u00e3o sobre isolamento e fus\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estas <b>Duas Casas<\/b> arquet\u00edpicas, de dimens\u00f5es diferentes mas escalas pr\u00f3ximas, encontram-se separadas, mas juntas no seu isolamento, na sua originalidade, sugerindo reflex\u00e3o sobre isolamento e fus\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":359,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-352","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sitespecific"],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=352"}],"version-history":[{"count":3,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":374,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352\/revisions\/374"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/359"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/ritacastroneves.com\/pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}